sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Love. and do whatever you want.
Saint Augustine

sábado, 2 de agosto de 2014

Sobre o homem prostrado

           Seu Marcos mora nas calçadas. Cada dia ele escolhe uma que a acolha com menos torpor que a da noite anterior e por lá ele permanece até que pés apressados não reparem que ocupam o mesmo espaço que Seu Marcos. O corpo do moço começa aos poucos a se desgrudar da calçada e ele deixa de ser um com o chão para se tornar um com as paredes; pelo menos é o que os olhos azuis notaram.
           Seu Marcos não cheira bem. A calçada que ele mora hoje não tem nem chuveiro nem sabonete, assim como a calçada de ontem, e se eu não me engano as outras dos outros dias. Pobre Seu Marcos, ele não sabe escolher calçadas direito, embora não lhe falte tempo de experiência no serviço... Os que carregam o cheiro do banho tomado não conseguem ficar perto do Seu Marcos por muito tempo, vão discretamente dando passos de desvio que almejam alcançar pelo menos um raio de um metro e meio de distância caso o sinal não tenha parado ainda para atravessarem logo a rua. Enquanto isso, os pés do Seu Marcos variam de rumo entre os pontos cardeais porque há muito tempo ele perdeu a bússola da vida.
          Seu Marcos faz aniversário dia primeiro de agosto, mas ele não lembra quando é primeiro de agosto e nem quantos anos ele fez da última vez. O bolo do parabéns foi o resquício de alguma coxinha de galinha que ele conseguiu comprar com os três reais e vinte centavos distribuídos entre muitas moedas de dez, algumas de vinte e cinco e uma de cinquenta centavos, frutos da pura arbitrariedade sortuda do dia do aniversário.
         Nesse dia, os pés do Seu Marcos tomaram a decisão de passar por uma porta que estava aberta no meio daquele grande centro de cidade. A porta era de madeira e abria para dentro. Media pelo menos dois metros e meio de altura e o seu topo formava um arco em oposição ao chão reto de piso escuro. Os membros do corpo estavam agora um pouco desobedientes, culpa da adrenalina fluindo nas veias que irrigavam suas extremidades. Seu Marcos não atravessa portas com frequência, ele era mais do tipo que sentava ao lado das portas. Os olhos de Seu Marcos abriram um pouco mais que o normal com fome de apreender todo aquele espaço antes de ele ser pedido para sair. Mas dali não lhe foi pedido para sair. Depois de passada a porta, haviam duas colunas de dezoito bancos de madeira cada que se estendiam até os pés de uma escadaria de três degraus e formavam um corredor entre elas que estava coberto por um tapete cor de vinho já manchado pelo tempo.  Cerca de trinta pessoas tomavam conta desses bancos, espalhadas em um degradê que ia do banco mais cheio perto das escadas ao mais vazio perto da porta com o arco. Seu Marcos se sentou no banco vazio. Ainda assim, duas pessoas do banco da frente que haviam tomado banho naquele dia preferiram atravessar o tapete velho para a outra coluna de possíveis assentos.
           Todos ficaram de pé. Seu Marcos também. No chão alto depois do terceiro degrau apareceu um homem de branco acompanhado de duas mulheres talvez um pouco mais velhas que ele. O homem de branco falou. Todos sentaram. Seu Marcos sentou. E houve uma repetição de ficar em pé e sentar-se que os joelhos de Seu Marcos não reconheciam muito bem, ou pelo menos já fazia muito tempo que não experimentavam. E então o esquema foi interrompido por um ajoelhar-se geral. O homem de branco levantou com as duas mãos um disco branco e logo depois, uma taça reluzente. O coração de Seu Marcos queria se ajoelhar mais do que o seu próprio corpo conseguia se retorcer, e se viu a encarar o dilema de ou olhar aquela cena que fazia o coração bater mais rápido ou olhar para o chão que falava da sua própria identidade. Ele escolheu abrir e fechar os olhos com intervalos lentos. Todos se levantaram. Seu Marcos continuou ajoelhado. Alguns de banho tomado olharam para trás e contemplaram Seu Marcos.
           Ali haviam muitas pessoas que tinham pelo menos mil e quinhentas vezes mais dinheiro que aquele homem prostrado. Essas pessoas frequentemente se questionavam sobre o propósito da vida, estudavam avidamente as maneiras de melhor fazer com que ela rendesse em tempo e qualidade, e uma hora ou outra precisavam se locomover por maiores distâncias na busca de um grande sentido. E o homem prostrado fez com que os olhos daqueles escorressem águas incontroláveis... Não era difícil para Seu Marcos permanecer assim, a vida já lhe havia acostumado, e ali os outros lhe invejaram.