terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sobre ter dó da formiguinha

Nasceu e já começou a trabalhar.
"Vamos, ande! Não pode estagnar!"
"A vida precisa render a partir do seu esforço!"
Ninguém perguntou se ela queria catar comida como profissão eterna,
Engoliu a seco e foi produzir.

Foi fazer a vida render.
Era uma vida tão curtinha, tadinha!
Mas para ela, era a única que tinha.
Foi fazer a vida render.

Veio um dedinho engraçadinho que nunca esteve em seu caminho,
Mas por pura diversão quis fincar-lhe a conclusão.

E lá estava ela, esborrachada na janela,
Sem mais sonhos, nunca os teve,
Sem tempo para deixar um bilhete...
E o dedinho vai sem culpa,
"Se não doeu, não há desculpa"
Ficou só rindo do seu ato
Enquanto na vida do outro, foi um fracasso.
Ainda há quem o defenda, mas para ela, Deus a tenha!
Termina assim uma história promissora
da formiguinha que poderia ter sido sonhadora
Tinha em si todas as possibilidades, mas o dedo crítico é sempre uma fatalidade
Sem saber o mal que fez, foi sair sorrindo sem rispidez

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Love. and do whatever you want.
Saint Augustine

sábado, 2 de agosto de 2014

Sobre o homem prostrado

           Seu Marcos mora nas calçadas. Cada dia ele escolhe uma que a acolha com menos torpor que a da noite anterior e por lá ele permanece até que pés apressados não reparem que ocupam o mesmo espaço que Seu Marcos. O corpo do moço começa aos poucos a se desgrudar da calçada e ele deixa de ser um com o chão para se tornar um com as paredes; pelo menos é o que os olhos azuis notaram.
           Seu Marcos não cheira bem. A calçada que ele mora hoje não tem nem chuveiro nem sabonete, assim como a calçada de ontem, e se eu não me engano as outras dos outros dias. Pobre Seu Marcos, ele não sabe escolher calçadas direito, embora não lhe falte tempo de experiência no serviço... Os que carregam o cheiro do banho tomado não conseguem ficar perto do Seu Marcos por muito tempo, vão discretamente dando passos de desvio que almejam alcançar pelo menos um raio de um metro e meio de distância caso o sinal não tenha parado ainda para atravessarem logo a rua. Enquanto isso, os pés do Seu Marcos variam de rumo entre os pontos cardeais porque há muito tempo ele perdeu a bússola da vida.
          Seu Marcos faz aniversário dia primeiro de agosto, mas ele não lembra quando é primeiro de agosto e nem quantos anos ele fez da última vez. O bolo do parabéns foi o resquício de alguma coxinha de galinha que ele conseguiu comprar com os três reais e vinte centavos distribuídos entre muitas moedas de dez, algumas de vinte e cinco e uma de cinquenta centavos, frutos da pura arbitrariedade sortuda do dia do aniversário.
         Nesse dia, os pés do Seu Marcos tomaram a decisão de passar por uma porta que estava aberta no meio daquele grande centro de cidade. A porta era de madeira e abria para dentro. Media pelo menos dois metros e meio de altura e o seu topo formava um arco em oposição ao chão reto de piso escuro. Os membros do corpo estavam agora um pouco desobedientes, culpa da adrenalina fluindo nas veias que irrigavam suas extremidades. Seu Marcos não atravessa portas com frequência, ele era mais do tipo que sentava ao lado das portas. Os olhos de Seu Marcos abriram um pouco mais que o normal com fome de apreender todo aquele espaço antes de ele ser pedido para sair. Mas dali não lhe foi pedido para sair. Depois de passada a porta, haviam duas colunas de dezoito bancos de madeira cada que se estendiam até os pés de uma escadaria de três degraus e formavam um corredor entre elas que estava coberto por um tapete cor de vinho já manchado pelo tempo.  Cerca de trinta pessoas tomavam conta desses bancos, espalhadas em um degradê que ia do banco mais cheio perto das escadas ao mais vazio perto da porta com o arco. Seu Marcos se sentou no banco vazio. Ainda assim, duas pessoas do banco da frente que haviam tomado banho naquele dia preferiram atravessar o tapete velho para a outra coluna de possíveis assentos.
           Todos ficaram de pé. Seu Marcos também. No chão alto depois do terceiro degrau apareceu um homem de branco acompanhado de duas mulheres talvez um pouco mais velhas que ele. O homem de branco falou. Todos sentaram. Seu Marcos sentou. E houve uma repetição de ficar em pé e sentar-se que os joelhos de Seu Marcos não reconheciam muito bem, ou pelo menos já fazia muito tempo que não experimentavam. E então o esquema foi interrompido por um ajoelhar-se geral. O homem de branco levantou com as duas mãos um disco branco e logo depois, uma taça reluzente. O coração de Seu Marcos queria se ajoelhar mais do que o seu próprio corpo conseguia se retorcer, e se viu a encarar o dilema de ou olhar aquela cena que fazia o coração bater mais rápido ou olhar para o chão que falava da sua própria identidade. Ele escolheu abrir e fechar os olhos com intervalos lentos. Todos se levantaram. Seu Marcos continuou ajoelhado. Alguns de banho tomado olharam para trás e contemplaram Seu Marcos.
           Ali haviam muitas pessoas que tinham pelo menos mil e quinhentas vezes mais dinheiro que aquele homem prostrado. Essas pessoas frequentemente se questionavam sobre o propósito da vida, estudavam avidamente as maneiras de melhor fazer com que ela rendesse em tempo e qualidade, e uma hora ou outra precisavam se locomover por maiores distâncias na busca de um grande sentido. E o homem prostrado fez com que os olhos daqueles escorressem águas incontroláveis... Não era difícil para Seu Marcos permanecer assim, a vida já lhe havia acostumado, e ali os outros lhe invejaram.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Notícias do trânsito

Ligo o rádio às 6 da manhã no carro e espero o momento em que ouvirei “Bom dia, caros ouvintes da (insira aqui a sua rádio preferida). Uma manhã de céu claro com poucas nuvens nessa quinta-feira, que já começa congestionada em todas as vias do Rio de Janeiro, assim como foi em todos os outros dias da semana. Desse jeito, só nos sobra ouvir as dicas para você conseguir chegar melhor no trabalho: Em 35 minutos o Sol estará nascendo do lado leste, então se você está trafegando sentido Centro da Cidade pela Avenida Brasil, minha dica é que o melhor ponto para você estar engarrafado e contemplar esse espetáculo é na altura de São Cristóvão, onde o Sol vai começar a nascer na passagem da Linha Vermelha. Mas se você ficou preso na altura da Penha, você ainda encontra a alternativa de olhar para a sua esquerda depois do viaduto Lobo Junior. Se você está vindo da Baixada e escolheu passar pela Linha Vermelha para chegar no Centro da Cidade, as condições serão ótimas: Dá pra ver o Sol em quase toda a extensão do seu engarrafamento. Mais especificamente, um congestionamento na altura do Caju será a melhor opção para quem quer ver o Sol nascer sob a ponte Rio-Niterói. E finalmente, se você vem de Niterói, espero que a sua travessia seja bem lenta, porque você vai precisar colocar essa foto no instagram. Dentro de instantes voltamos com mais informações sobre o trânsito. Aqui quem fala é Fulano de Tal, repórter aéreo da X FM.”

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sobre os fones de ouvido

Existem algumas frações de momentos na vida, que seu interior sabe que está na hora de colocar os fones de ouvido e dar o play na sua música favorita. Principalmente quando a fração foi 5/7 avos da sua semana.
As pessoas vão continuar falando, lendo, brigando, amamentando, e enquanto isso você está com seu fone de ouvido curtindo a sua música favorita. Pode ser que você tenha que estender essa perspectiva para a sua playlist favorita; a vida não é fácil, não. Mas passa. Ou passa ela, ou passa você, ou vão os dois juntos de mãos dadas. E você tá curtindo estar com o fone de ouvido. Mas esteja atento, da mesma maneira que você obedeceu sua profunda sensibilidade para o começo da ação, perceba a hora que é melhor você liberar seus ouvidos para não perder a próxima estação. Enfim, murmure sua música, deixe-se embalar balanceando o quadril entre a perna direita e a esquerda e batendo com a palma da mão na coxa fechando os olhos para não ter que encarar todos que estarão te encarando. Porque eles preferiram não ouvir a sua música favorita. Só isso. Vai passar.

Salve-me

Há quem diga que a beleza salvará o mundo, e somente por isso me ponho a fitar a tua.
Porque a tua beleza me salva, ela é inigualável.
Queria eu poetizá-la, e então a guardaria para sempre nos registros vindouros, mas a contemplação é egoísta em mim. 
Então é isso que tu recebes em retorno: os meus olhos. Dou-te de carregado mando do universo, porque não poderiam pertencer a mais ninguém enquanto me ponho a te fitar, a fitar a tua beleza.

domingo, 22 de junho de 2014

Sobre um leão, um amor e sua consequência.

Boa noite.
Como sempre, inicio um post com a frase "já faz muito tempo que não passo por aqui..." Enfim, é. E voltei.
Precisava falar algo que latejava no meu coração, e me pareceu o lugar apropriado.
Há 1 semana atrás, fui ao Zoológico de Luján, na Argentina. Quem conhece meu coração sabe que eu estava indo realizar um sonho: encostar em um leão. Na verdade, na verdade, eu queria poder abraçar um leão, me esconder na sua juba, olhar nos olhos... Assim como eu faria se eu encontrasse o Aslan na minha frente (para maiores informações sobre como Aslan é um ser fenomenal, favor ler As Crônicas de Nárnia). 
Desde que peguei o ônibus para o zoológico, eu já me encontrava ansiosa, e a ansiedade crescia conforme cada passo que eu dava para chegar naquela jaula. 
Daí tinha uma fila.
E na fila eu parei.
E parada, eu refleti...
O leão que estava naquela jaula tinha um olhar tristonho, ele não era quem ele nasceu para ser. Ele era quem os outros queriam que ele fosse. Como eu poderia dizer que amava aquele leão se eu não permitia que ele fosse quem sua natureza pedia que ele fosse?
O amor deixa livre.
Às vezes na vida nosso sentimento por alguém é tão grande que queremos essa pessoa do nosso lado, fazendo o que achamos que seja melhor para ela. Mas isso não é amar. Para chegar à essência do amor, é necessário permitir que o outro esteja em total liberdade para ser aquilo que Deus deseja, ainda que tome decisões com as quais não ficamos felizes. No amor, a nossa felicidade é contemplar a felicidade do outro.
É... dói. Mas é amor.
Entrei na jaula, tirei a foto, até dei leite para o leão... Mas eu sei que no fundo, no fundo, quem ama deixa livre. E eu também preciso aprender isso.

domingo, 16 de março de 2014

Quero um frio na barriga.
Quero levantar meus pés como num passo de bailarina e ir chegando, aos poucos, mais em cima, quase no alto, estendendo minhas mãos na tentativa de alcançar os céus.
E quero alguém que me ajude a, quando eu estiver na pontinha do último dedo, me levantar um pouquinho mais para que eles deixem de tocar o chão.
Que seja por alguns segundos.
Que seja por alguns minutos.
Que seja por uma vida inteira.

"O amor é um precipício, a gente se joga nele e reza
para o chão nunca chegar."
(Lisbela e o Prisioneiro)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sobre não carregar duas túnicas

Estava eu meditando o evangelho de ontem quando um certo trecho me chamou a atenção: "Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas." (Mc 6, 8s)
Beleza, até aí todo mundo entendeu que na hora de sair pra missão, confie na Providência de Deus... Ok. Mas o que talvez você e eu não tenhamos entendido é que: na hora de sair pra missão, confie na Providência de Deus!
Oi?! É.
Primeiro, o que é sair pra missão? Se você teve um encontro pessoal com Deus e entendeu que Ele te ama, perdoa seus pecados e lhe confiou o Espírito Santo até Sua segunda vinda, sair pra missão é acordar. Logo, a missão é tudo o que vem depois do acordar! É necessário que você perceba que aquele pra quem você vai pregar não está te esperando no banco da igreja durante um retiro. O bendito está do seu lado, quer seja fisicamente ou virtualmente, mas está do seu lado. E a sua missão é exalar Deus seja por palavras, seja no silêncio. 
Segunda parte, o que é confiar na Providência de Deus? Me perdoe pelo enfoque que eu vou dar, mas o meu questionamento estava em como isso acontecia espiritualmente falando, porque daí a gente já tinha entendido que duas túnicas eram duas túnicas, assim como pão significa pão fisicamente falando. Mas o que é esse pão, a sacola, o dinheiro e a túnica espiritualmente falando? São as minhas reservas. 
Ah, beleza, falou o óbvio... Não! Pare e pense! Sem reservas! Sem o "mas no caso de...", "ah, vou deixar isso aqui no cantinho só no caso de não dar certo..." Sem reservas! Porque Deus te quer por inteiro pra exalar Deus por inteiro. As suas reservas são aquilo que fazem você dar um passo pra trás quando parece que as coisas estão incertas ou profundas demais. A sua reserva é o seu excesso...
E daí nós voltamos à postagem anterior, qual é o excesso que eu tenho trazido no meu coração esses dias (ou sempre)? Qual é ou quem é o meu excesso?
Larga e deixa Deus cuidar de tudo. Permita-se ser ensinado pela Providência de Deus.
Deus te abençoe!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Sobre o necessário, somente o necessário...

Sábado eu e meus amigos fomos estrear o "Just Dance Disney" para nos sentirmos princesas e príncipes dançando. No meio de uma pingada de suor e risada, eu precisei parar. Não parei porque estava cansada, não... Parei porque a música saltou aos meus ouvidos e eu entendi o que Deus estava tentando me dizer há muito tempo.
Oi?! Sim, acredite. A Disney é capaz de criar reflexão (vide o post sobre o Rei Leão que eu escrevi no ano passado), e dessa vez foi com o Mogli.

Se você já assistiu o filme, lembra daquela dancinha do "necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais"?! Pois bem, é isso, meu caro! Hoje eu estava andando na Barra da Tijuca e refletia o quão espetacular eram aquelas construções e o estilo de vida que vinha no pacote. Paraísos artificiais. Esse composto de palavras ficou muito claro na minha mente: paraísos artificiais. É tudo muito lindo, projeta uma qualidade de vida, cria desejos de ter... Mas é tudo oco! Sabe quando você bate numa caixa de madeira vazia e ouve aquele som oco? Falta alma, não é o essencial. O meu essencial traz plenitude à minha vida. O seu essencial traz plenitude à sua vida. E o seu essencial é o seu necessário.
É claro que o bom Deus pode desejar te surpreender com alguns mimos, que vão além e que chamamos, nesse contexto, de extraordinário. Mas o excesso não é a regra. Então pra que ter o excesso como meta? Vaidade, nada mais que vaidade...
Um trecho simples e interessantíssimo no meio dessa música é o diálogo do questionamento do Mogli e a resposta do Balu: "E o necessário pra viver você terá" "Mas quando?" "Você terá!"
É simples assim! Mas quando??? Confie, porque você terá! Quem confia na Providência de Deus não é desamparado. Confiar na Providência é confiar na Providência, sem história de "mas no caso de...". Confiar na Providência! Sem saber em que tempo virá, mas na certeza de que virá.
Que grande exercício! Esse é meu desafio hoje, e espero que você também aceite esse convite: Deixe-se ser ensinado pela Providência.
Que Deus lhe abençoe!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Sobre o que eu quero da minha vida

Sei não.
E eu, por um acaso, tinha que saber? Em que momento da minha vida eu deveria ter chegado na linha que divide o "não saber o que quero fazer pro resto da minha vida" e o "eu já sei o que quero fazer pro resto da minha vida"? Não tem! E que alívio que não tem, viu?
Sei não.
Será que continuo a fazer o que sempre fiz, será que mudo de cidade, será que mudo de mim? O futuro de amanhã já é complexo o suficiente e eu ainda tenho que pensar no futuro dos outros dias do sempre da minha existência?
Sei não.
E se eu fotografasse as flores? E se eu contemplasse as ondas dos mares? E se eu brincasse de desvendar as nuvens do céu? E se eu tomasse banho de chuva?
Sei não.
Sei não.
Sabe Deus.
Vou fazer assim: ficar nos pés do Senhor e nunca mais sair dali. Vou esperar o próprio Deus me falar a resposta de cada pergunta, e das que eu nem soube fazer. Só existe uma certeza para mim: A única certeza para o resto da minha vida é amar. 
Sabe Deus.