quarta-feira, 14 de março de 2012

Clarice, de verdade, e sobre saudades

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida." Clarice Lispector

quarta-feira, 7 de março de 2012

Sobre O Rei Leão, mentiras, fugas, vocação e felicidade

Aham. Foi isso mesmo que você leu no título. Mas entendo que preciso te contextualizar para te deixar menos chocado(a): (Contém spoiler. Se você não assistiu o filme, o que eu duvido muito, não leia)

Há 2 semanas atrás, num domingo, eu estava voltando de um retiro (maravilhoso, por sinal) e quando cheguei em casa, estava passando O Rei Leão na TV. E é um pouco óbvio que eu preferi mil vezes assistir um filme que eu já vi um milhão de vezes do que deixar a TV no Faustão. Óbvio. E se você tem aproximadamente a mesma idade que eu, deve fazer parte de uma geração que tem praticamente todas as frases desse filme decoradas (bem como tantos outros filmes da Disney). E mesmo assim Deus me surpreendeu, porque pude perceber coisas que não tinha percebido nas outras 999.999 vezes que eu tinha assistido e cantado com o Simba.


Vamos, então, a uma das cenas mais tristes do filme, a morte do Mufasa. Você deve bem lembrar que o Simba começa a chorar ao lado do corpo do pai e, logo em seguida, seu tio Scar chega para "consolar" o leãozinho. O fato é que, nesse momento delicado e de vulnerabilidade do Simba, o Scar começa a jogar mentiras sobre ele, afirmado que tudo tinha sido sua culpa e que era melhor que ele fugisse dali.Todos nós sabemos que a culpa não era do Simba e que o Scar só fazia isso para conseguir o que queria, o trono. Mas conseguiu enganar a "criança", e ela fugiu cheia de remorso. O inimigo faz a mesma coisa conosco. Quando estamos passando por um momento difícil e delicado, ele vem nos encher de mentiras para que queiramos fugir da nossa realidade e não encarar as nossas responsabilidades. Entenda: Ele nos enche de mentiras, não são "verdades difíceis de lidar", são mentiras. Você pode pensar nos seus próprios exemplos...


E então, o Simba foge, como solução para o seu problema. Daí ele começa a viver o "hatuna matata" (os seus problemas você deve esquecer, isso é viver, é aprender...), cuja tradução é fuga (não, não é a tradução literal, foi a minha analogia). Invés de encarar seus problemas e realidades, ele adota como lema de vida a fuga daquilo que lhe dói a cabeça, e acredita estar super feliz fazendo isso, acha que ali é o seu lugar, que tudo está em "paz e tranquilidade". Mas não é assim. Não podemos nos acostumar com o esconderijo que encontramos. Sua vocação não é estar no esconderijo, e você não vai descobri-la se estiver se escondendo.

A vocação do Simba era se tornar rei logo após a morte do seu pai. Ele nasceu para ser grande, ele foi formado para ocupar um lugar que ninguém mais poderia ocupar. E se alguém ocupasse esse lugar, não seria a mesma coisa. O mesmo se aplica a você. Você também nasceu com uma missão. Essa missão, ninguém mais vai conseguir realizar tão absolutamente quanto você mesmo. Você tem um lugar no mundo. E o Simba precisou de uma "cajadada" na cabeça e mais uns "chacoalhões" para perceber isso. Mas percebeu, e isso é o que importa!

Quando ele decide assumir o lugar que lhe é de direito, ele precisa aprender a lidar com o seu passado e reescrever a sua história lhe dando um novo significado. Só conseguiremos dar passos para frente se os passos de trás tiverem um rumo.

Enfim, depois de seu passo de maturidade, ele finalmente pôde desfrutar daquilo que era sua missão e pôde saborear uma felicidade que o deixaria realmente preenchido como pessoa (ou animal!). O passo para essa felicidade precisou começar com o reconhecimento de que ele estava no esconderijo e que ele precisava resgatar aquilo que era sua vocação, mesmo tendo que encarar fatos que preferia deixar esquecidos.

E você? Em que degrau está?

Que Deus te abençoe!

Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante

A frase do título se auto explica, e eu poderia ter parado por aqui, sem precisar desenvolvê-la. Porém a decisão é sua. Se você acha que o título já foi suficiente, pode pular esse post e olhar os outros. Ou se você quiser ler um pouquinho mais sobre tempo, pode permanecer por aqui. Te dou 3 segundos. 1... 2... 3...

Então você decidiu continuar lendo! Que bom! 

Últimos minutos de férias com certeza nos fazem refletir mais sobre o valor do tempo, e que bom que Saint-Exupéry pôde me lembrar algumas coisas.
O que torna uma pessoa como outra qualquer única no mundo para você? O tempo que você teve com ela. Foi o tempo que permitiu cativar e ser cativado. Infelizmente parece que fomos condicionados a querer andar à frente do próprio relógio. Precisamos estar adiantados, precisamos fazer tudo antes dos outros, precisamos ser os primeiros, não podemos "perder tempo"...
Mas que história é essa de "perder tempo"?!?! Me recordo agora de uma música do Pe. André Luna que diz no seu refrão "Quem ama não perde tempo"... E então, qual é a medida do tempo certo para que vivamos essa experiência sublime do amor sem trocar os pés pelas mãos?
I Cor 13, 4a: "O amor é paciente." Essa é a chave.
E se você acha que até aí eu não disse nada, por favor, deixe-me explicar: Ser paciente é saber esperar o tempo do outro.
Não sei se eu e você vivemos no mesmo mundo, mas pelo menos no meu mundo o que eu posso reparar é uma juventude perdida com pressa de ser amada. Eles desejam o outro logo e agora, é daí que nasce o perigoso "ficar". O ficar é exatamente o querer amar e ser amado sem ter que passar pelo teste do tempo e da paciência. Como o sábio Saint-Exupéry constatou, há todo um ritual de espera e de tempo para ir construindo o amor. "É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto..."
De fato, quem ama não perde tempo, mas também não atropela o tempo do outro. Não é uma questão de ser um exercício fácil ou não, mas é conseguir saborear algo fruto da espera em Deus.

Que Deus te abençoe!