quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Para quem criou meu coração

Oi.
Então, quebrou de novo... Eu sei, eu sei, tentei tomar mais cuidado mas às vezes ele teima de sair desembestado e não olha por onde anda. Como que o pobrezinho vai adivinhar o futuro também, né?
Você não se importa de consertar mais uma vez, se importa?
Pelo menos com o fabricante nem sai caro... É, eu sei que vai ter que ficar por um período em manutenção e que conforme o tempo vai passando ele vai ficando mais frágil também. Vou tentar tomar mais cuidado da próxima vez, prometo. 
Ah, você pode deixar seu número gravado na memória automática? Acho que dá pra evitar uns bons danos se eu começar a te procurar com mais frequência.
O bom é que quando você cuida ele sai mais bonito do que quando tava zerado... Até desconfio que você gosta quando eu apareço com ele todo destrambelhado aqui na sua porta... 
Poxa, muito obrigada por mais esse favorzão, mesmo!
É... 
O que você acha de a gente tomar um café juntos qualquer dia desses, tipo hoje? Sei lá, acho que eu posso contar algumas histórias de onde esse coração já andou. Enfim, as histórias são ótimas, os desfechos nem tanto, mas do final você já sabe tudo mesmo.
Pode deixar que eu te ligo, beijos!
Brigadão mais uma vez.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sobre ter dó da formiguinha

Nasceu e já começou a trabalhar.
"Vamos, ande! Não pode estagnar!"
"A vida precisa render a partir do seu esforço!"
Ninguém perguntou se ela queria catar comida como profissão eterna,
Engoliu a seco e foi produzir.

Foi fazer a vida render.
Era uma vida tão curtinha, tadinha!
Mas para ela, era a única que tinha.
Foi fazer a vida render.

Veio um dedinho engraçadinho que nunca esteve em seu caminho,
Mas por pura diversão quis fincar-lhe a conclusão.

E lá estava ela, esborrachada na janela,
Sem mais sonhos, nunca os teve,
Sem tempo para deixar um bilhete...
E o dedinho vai sem culpa,
"Se não doeu, não há desculpa"
Ficou só rindo do seu ato
Enquanto na vida do outro, foi um fracasso.
Ainda há quem o defenda, mas para ela, Deus a tenha!
Termina assim uma história promissora
da formiguinha que poderia ter sido sonhadora
Tinha em si todas as possibilidades, mas o dedo crítico é sempre uma fatalidade
Sem saber o mal que fez, foi sair sorrindo sem rispidez

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Love. and do whatever you want.
Saint Augustine

sábado, 2 de agosto de 2014

Sobre o homem prostrado

           Seu Marcos mora nas calçadas. Cada dia ele escolhe uma que a acolha com menos torpor que a da noite anterior e por lá ele permanece até que pés apressados não reparem que ocupam o mesmo espaço que Seu Marcos. O corpo do moço começa aos poucos a se desgrudar da calçada e ele deixa de ser um com o chão para se tornar um com as paredes; pelo menos é o que os olhos azuis notaram.
           Seu Marcos não cheira bem. A calçada que ele mora hoje não tem nem chuveiro nem sabonete, assim como a calçada de ontem, e se eu não me engano as outras dos outros dias. Pobre Seu Marcos, ele não sabe escolher calçadas direito, embora não lhe falte tempo de experiência no serviço... Os que carregam o cheiro do banho tomado não conseguem ficar perto do Seu Marcos por muito tempo, vão discretamente dando passos de desvio que almejam alcançar pelo menos um raio de um metro e meio de distância caso o sinal não tenha parado ainda para atravessarem logo a rua. Enquanto isso, os pés do Seu Marcos variam de rumo entre os pontos cardeais porque há muito tempo ele perdeu a bússola da vida.
          Seu Marcos faz aniversário dia primeiro de agosto, mas ele não lembra quando é primeiro de agosto e nem quantos anos ele fez da última vez. O bolo do parabéns foi o resquício de alguma coxinha de galinha que ele conseguiu comprar com os três reais e vinte centavos distribuídos entre muitas moedas de dez, algumas de vinte e cinco e uma de cinquenta centavos, frutos da pura arbitrariedade sortuda do dia do aniversário.
         Nesse dia, os pés do Seu Marcos tomaram a decisão de passar por uma porta que estava aberta no meio daquele grande centro de cidade. A porta era de madeira e abria para dentro. Media pelo menos dois metros e meio de altura e o seu topo formava um arco em oposição ao chão reto de piso escuro. Os membros do corpo estavam agora um pouco desobedientes, culpa da adrenalina fluindo nas veias que irrigavam suas extremidades. Seu Marcos não atravessa portas com frequência, ele era mais do tipo que sentava ao lado das portas. Os olhos de Seu Marcos abriram um pouco mais que o normal com fome de apreender todo aquele espaço antes de ele ser pedido para sair. Mas dali não lhe foi pedido para sair. Depois de passada a porta, haviam duas colunas de dezoito bancos de madeira cada que se estendiam até os pés de uma escadaria de três degraus e formavam um corredor entre elas que estava coberto por um tapete cor de vinho já manchado pelo tempo.  Cerca de trinta pessoas tomavam conta desses bancos, espalhadas em um degradê que ia do banco mais cheio perto das escadas ao mais vazio perto da porta com o arco. Seu Marcos se sentou no banco vazio. Ainda assim, duas pessoas do banco da frente que haviam tomado banho naquele dia preferiram atravessar o tapete velho para a outra coluna de possíveis assentos.
           Todos ficaram de pé. Seu Marcos também. No chão alto depois do terceiro degrau apareceu um homem de branco acompanhado de duas mulheres talvez um pouco mais velhas que ele. O homem de branco falou. Todos sentaram. Seu Marcos sentou. E houve uma repetição de ficar em pé e sentar-se que os joelhos de Seu Marcos não reconheciam muito bem, ou pelo menos já fazia muito tempo que não experimentavam. E então o esquema foi interrompido por um ajoelhar-se geral. O homem de branco levantou com as duas mãos um disco branco e logo depois, uma taça reluzente. O coração de Seu Marcos queria se ajoelhar mais do que o seu próprio corpo conseguia se retorcer, e se viu a encarar o dilema de ou olhar aquela cena que fazia o coração bater mais rápido ou olhar para o chão que falava da sua própria identidade. Ele escolheu abrir e fechar os olhos com intervalos lentos. Todos se levantaram. Seu Marcos continuou ajoelhado. Alguns de banho tomado olharam para trás e contemplaram Seu Marcos.
           Ali haviam muitas pessoas que tinham pelo menos mil e quinhentas vezes mais dinheiro que aquele homem prostrado. Essas pessoas frequentemente se questionavam sobre o propósito da vida, estudavam avidamente as maneiras de melhor fazer com que ela rendesse em tempo e qualidade, e uma hora ou outra precisavam se locomover por maiores distâncias na busca de um grande sentido. E o homem prostrado fez com que os olhos daqueles escorressem águas incontroláveis... Não era difícil para Seu Marcos permanecer assim, a vida já lhe havia acostumado, e ali os outros lhe invejaram.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Notícias do trânsito

Ligo o rádio às 6 da manhã no carro e espero o momento em que ouvirei “Bom dia, caros ouvintes da (insira aqui a sua rádio preferida). Uma manhã de céu claro com poucas nuvens nessa quinta-feira, que já começa congestionada em todas as vias do Rio de Janeiro, assim como foi em todos os outros dias da semana. Desse jeito, só nos sobra ouvir as dicas para você conseguir chegar melhor no trabalho: Em 35 minutos o Sol estará nascendo do lado leste, então se você está trafegando sentido Centro da Cidade pela Avenida Brasil, minha dica é que o melhor ponto para você estar engarrafado e contemplar esse espetáculo é na altura de São Cristóvão, onde o Sol vai começar a nascer na passagem da Linha Vermelha. Mas se você ficou preso na altura da Penha, você ainda encontra a alternativa de olhar para a sua esquerda depois do viaduto Lobo Junior. Se você está vindo da Baixada e escolheu passar pela Linha Vermelha para chegar no Centro da Cidade, as condições serão ótimas: Dá pra ver o Sol em quase toda a extensão do seu engarrafamento. Mais especificamente, um congestionamento na altura do Caju será a melhor opção para quem quer ver o Sol nascer sob a ponte Rio-Niterói. E finalmente, se você vem de Niterói, espero que a sua travessia seja bem lenta, porque você vai precisar colocar essa foto no instagram. Dentro de instantes voltamos com mais informações sobre o trânsito. Aqui quem fala é Fulano de Tal, repórter aéreo da X FM.”

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Sobre os fones de ouvido

Existem algumas frações de momentos na vida, que seu interior sabe que está na hora de colocar os fones de ouvido e dar o play na sua música favorita. Principalmente quando a fração foi 5/7 avos da sua semana.
As pessoas vão continuar falando, lendo, brigando, amamentando, e enquanto isso você está com seu fone de ouvido curtindo a sua música favorita. Pode ser que você tenha que estender essa perspectiva para a sua playlist favorita; a vida não é fácil, não. Mas passa. Ou passa ela, ou passa você, ou vão os dois juntos de mãos dadas. E você tá curtindo estar com o fone de ouvido. Mas esteja atento, da mesma maneira que você obedeceu sua profunda sensibilidade para o começo da ação, perceba a hora que é melhor você liberar seus ouvidos para não perder a próxima estação. Enfim, murmure sua música, deixe-se embalar balanceando o quadril entre a perna direita e a esquerda e batendo com a palma da mão na coxa fechando os olhos para não ter que encarar todos que estarão te encarando. Porque eles preferiram não ouvir a sua música favorita. Só isso. Vai passar.

Salve-me

Há quem diga que a beleza salvará o mundo, e somente por isso me ponho a fitar a tua.
Porque a tua beleza me salva, ela é inigualável.
Queria eu poetizá-la, e então a guardaria para sempre nos registros vindouros, mas a contemplação é egoísta em mim. 
Então é isso que tu recebes em retorno: os meus olhos. Dou-te de carregado mando do universo, porque não poderiam pertencer a mais ninguém enquanto me ponho a te fitar, a fitar a tua beleza.